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24/04/2015
Opinião de Ana Gomes: Falta-nos Europa face à tragédia no Mediterrâneo

Desde o início do ano morreram já quase duas mil pessoas em naufrágios no Mediterrâneo. A cada dia que passa, nesta Primavera, chegam barcaças apinhadas de gente a Itália, Malta e Grécia, vindas das costas líbias. Desde Janeiro, chegaram à Europa mais de 35 mil pessoas, despachadas por redes de traficantes que se aproveitam do drama humano vivido por quem foge da guerra na Síria, no Iraque, na Somália, da opressão e miséria em Gaza, na Etiópia, na Eritreia, no Sudão, e do terrorismo na Nigéria e na própria Líbia, onde não há sequer Estado.

Uma grande parte são requerentes de asilo e refugiados: fogem para salvar a vida. Outros são migrantes económicos, fogem à miséria movidos pela necessidade, tal como a que força portugueses a emigrar devido ao desemprego e salários indecentes. É revoltante, é desumano que a Europa volte as costas a estas pessoas e as deixe morrer afogadas no Mediterrâneo ou penar horrores apinhadas em centros de detenção nas fronteiras terrestres da Grécia e da Bulgária.

Os líderes europeus sabem perfeitamente que as vagas de imigrantes e refugiados estão relacionadas com o crescendo de terrorismo, de conflitos, guerras, opressão e miséria, por sua vez fomentados pela má governação que políticas europeias sustentam, por acção e omissão. Por exemplo, por acção, na Etiópia, onde o Fundo Europeu de Desenvolvimento financia uma ditadura; por omissão, em Gaza, onde a UE se desinteressou de reactivar o Processo de Paz Israelo-Palestiniano; ou na Líbia, pela inacção - ou seja, não por causa do que fizeram os países europeus que participaram na campanha da NATO contra Khadaffi, mas pelo que NÃO fizeram depois, quando os governos post Khadaffi pediram apoio para ajudar a desarmar e desmantelar as milícias e a reformar o sector da segurança. Por omissão, por falta de coordenação europeia, a UE ajudou a entregar a Líbia ao caos e aos terroristas!

A União Europeia sabe o que tem a fazer para parar a tragédia mas, como se viu no Conselho Europeu de emergência que reuniu esta semana, continua dividida, sem solidariedade, sem liderança à altura dos desafios e responsabilidades. Vergados a teses demagógicas e populistas assentes na ilusão de uma Europa fortaleza, os Chefes de Estado e de Governo da UE acabam por fazer o jogo de redes criminosas e de terroristas, continuando alimentando-lhes o negócio da traficância humana: podiam retirar-lhes a base, o lucro, se abrissem vias legais e seguras para a migração. É o que há muito recomenda o Parlamento Europeu (PE), pedindo uma Política Comum de Imigração - que, de resto, servirá os interesses da própria Europa, bem necessitada da contribuição rejuvenescedora dos migrantes.

O PE há muito que recomenda também uma Política Comum de Asilo, como pede o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para se distribuir o acolhimento de refugiados equitativamente.

A UE podia e devia há muito ter uma acção coordenada, articulando as Marinhas, Guardas Costeiras e outras agências numa operação da Política Comum de Segurança e Defesa para salvar vidas no Mediterrâneo e apanhar e julgar os traficantes. Agora, como fez Passos Coelho, desculpam-se com a ONU, para continuarem a não agir como deviam.

Falta-nos Europa, num problema que nenhum Estado Membro sozinho pode resolver. Precisamos de mais Europa. E precisamos desesperadamente de liderança europeia capaz.

 

 
 
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